25.3.06

Nada mais vai nos interromper



Nada mais vai nos interromper.
As cadeiras sob a mesa, os papéis, as lembranças.
Nada mais vai nos interromper.
Se é certo fazer, se é errado fazer, não queremos saber.
Nada mais vai nos interromper.
Nem o pouco tempo. Nenhum tempo de sobra.
Nada mais vai nos interromper.
Mesmo que o vento seja insinuação de chuva.
Nada mais vai nos interromper.
Mesmo que seja aconselhável esquecer.
Nada mais vai nos interromper.
pra quem gosta de scrap:
www.scrapdiary.com.br

15.3.06

13.3.06

Bienal do Livro




NADA COMO UMA MULHER INTELIGENTE

Um casal sai de férias para um hotel-fazenda. O homem gosta de pescar de madrugada e a mulher gosta de ler. Uma manhã, o marido volta de horas pescando e resolve tirar uma soneca. Apesar de não conhecer bem o lago, a mulher decide pegar o barco do marido e ler no lago. Ela navega um pouco, ancora, e continua lendo seu livro.

Chega um guardião do parque em seu barco, pára ao lado da mulher e fala:
- Bom dia, Madame. O que está fazendo?
- Lendo um livro - ela responde, e pensando: será que não é óbvio?
- A senhora está em uma área restrita em que a pesca é proibida, ele informa.

- Sinto muito, tenente, mas não estou pescando, estou lendo.
- Sim, mas com todo o equipamento de pesca. Pelo que sei, a senhora pode começar a qualquer momento. Se não sair daí imediatamente, terei que multá-la e processá-la.
- Se o senhor fizer isso, terei que acusá-lo de assédio sexual, diz a mulher.
- Mas eu nem sequer a toquei! - diz o guardião.
- É verdade, mas o senhor tem todo o equipamento. Pelo que sei, pode começar a qualquer momento.
- Tenha um bom dia, Madame - ele diz e vai embora.

MORAL DA HISTÓRIA: Nunca discuta com uma mulher que lê. É certo que ela pensa.

8.3.06

Mulher



Substantivo? Talvez seja o mais correto. Mas é incompleto. Primeiro, porque mulher não se nasce feita: torna-se. Nasce em forma concreta, mas se completa em caráter, no abstrato, apenas com o decorrer da vida e de seus feitos. E mulheres existem várias. Mas quando, de repente para alguém, passa a existir uma só, mulher deixa de ser plural para se tornar substantivo próprio, único. Vira mulher com M maiúsculo. Então, ela se torna referência, característica de comparação, e, por isso, até pode ser um adjetivo. E o mais poderoso. E para ir além, é com um toque de interjeição — porque faz parte dela a emoção e o sentimento — que consegue ser tão necessária ao dia-a-dia, fazendo-se, por isso, mulher. Substantivo concreto ou abstrato? Adjetivo ou interjeição? É melhor ficar só com "mulher" mesmo. Porque se conceitua em si e, pra falar a verdade, nenhuma classe ou palavra irá conseguir definir o ser que só uma mulher consegue entender. E na falta de definições, fica a homenagem pra você minha amiga e a mensagem prá você meu amigo, pelo nosso dia. Parabéns.

6.3.06

Longe Demais


Composição: Vanessa da Mata e Liminha

Beijei seu rosto e guardei
Achei sincero e sem dúvida
Era quase de manhã, era madrugada
A noite esconde a cidade, você some
Será que é cria da noite e eu não sei
As horas cessaram naquela manhã que vem
E é outro dia
Será um desencontro e eu vou sozinha?
Ele não dá um sentimento
Será um jogo intenso que se anuncia
Ele ri e sabe o que faz? nada
Te quis pra minha vida, todo o tempo esperei
E a vida agora está em torno de você
Amanhã é longe demais
Pra quem não tem
Pra quem não sabe
Pra quem não tem a eternidade

3.3.06

Eu o amo!



O amor, como a atmosfera, nos envolve, nos alimenta. Também pode envenenar. O amor é o mais intenso dos sinônimos da vida, o mais permanente, o que de fato salva. O amor nos consome e nos consuma. Na coletânea de crônicas O Amor Esquece de Começar, Fabrício Carpinejar, autor dos aclamados livros de poemas Cinco Marias, Como no Céu/Livro de Visitas e As Solas do Sol, comparece pela primeira vez vestido em prosa, em linguagem fluente, conversando quase num sussurro generoso – porque o que ele nos traz são notícias, impressões, e mais, a força impactante, reconfortadora e capaz de fazer nascer o ser que sempre fomos. Só que, desta vez, completos. O amor nos toma, mesmo antes de abrirmos a porta e percebermos sua entrada. Convém não deixá-lo ir embora, convém deixá-lo entrar. O Amor Esquece de Começar é um alerta, um aviso, uma porta aberta.

Carpinejar, desta vez, abre a sua guarda, única forma (exposição plena na ação corajosa e generosa de ser quem é) para chegar ao coração de seu tema: a paixão, que nos envolve, que nos abandona muitas vezes ressecadas, que nos ressuscita, que leva quem ama e mesmo quem não ama na direção do inesquecível, do definitivo, da salvação que nos mergulha no perder-se para se encontrar. Sem posses, mas possuídos. Desarmados, mas enfim saboreando o alimento supremo: nossa alma gêmea, que nos olha num silêncio a narrar por gestos suaves o que o discurso mais inflamado nem cogita.
O amor é uma surpresa e uma confirmação. Um renascimento para quem até então não o encontrava. Um espelho a mostrar a beleza e o vigor a quem sempre soube identificá-lo. O Amor Esquece de Começar é esse espelho. A mulher, principal interlocutora de seus textos certeiros, não está sozinha. O homem também pode participar dessas revelações que, apontadas numa direção, atingem todos e tudo. O amor, afinal, é o sentido da vida e o conforto para a assustadora dimensão do universo. “Quero recuperar o romantismo, uma visão cristalina e verdadeira das relações amorosas, um cuidado na fala, a sedução”, revela Carpinejar. “Sem idealismo, mas com idealização. A expectativa e a confiança fazem bem ao amor e não podem ser abolidos. Desejo, com as mulheres, o consenso das mãos durante o dia e dos pés durante a noite.”

Leia a “orelha” do livro, por Martha Medeiros

Alguns críticos, quando querem falar mal do trabalho de alguém sem ser demasiadamente ofensivos, dizem: "Fulano, como cineasta, continua um grande músico". Pois eu digo que Fabricio Carpinejar, como cronista, continua um grande poeta, e isso é um elogio, pois não o divide em dois: soma. Fabricio seria poeta até mesmo se fosse convocado a escrever obituários, laudos periciais e relatórios de diretoria. É poeta sem chance de fuga. E que poeta.
Em seu livro de estréia como cronista, escolheu o tema mais recorrente na poesia - o amor - e fez uma exaltação às mulheres, todas as dele (mãe, esposa, filha, amigas) e todas as que ele conhece a fundo sem jamais ter posto os olhos. Ele domina o universo feminino a ponto de demonstrar uma cumplicidade inquietante com nossa solidão e nossas vertigens mais secretas. Como na crônica "Quando Ela Goza", em que descreve uma mulher após o orgasmo: "Quase chorava de tanto que se expulsou. Quase chorava de tanto que se recebeu de volta".
Fabrício flutua entre a concisão e o esbanjamento. Às vezes deixa as palavras à solta, como se elas não tivessem dono, como se não fosse ele a escrevê-las e sim elas a si próprias, livres do patrulhamento do autor, e então de repente ele interrompe este passeio com um frase rápida e genial, a exemplo da crônica em que condena os namoros longos e planejados: "Não faço futuro, caso logo para fazer passado".
Entre o nonsense a realidade, Fabricio Carpinejar é mestre em acertar no alvo, ora nos emocionando muito, ora nos emocionando bastante - as duas únicas reações que se pode ter diante deste livro escrito às ganhas. "Eu sou embaralhado de desejos", revela.
Ele nos atordoa, de fato. "Se você não entender o que quero dizer, estaremos quites". Fabricio, a gente só não entende como esta sua convulsão emocional pode ser tão exata.

Martha Medeiros


EDITORA BERTRAND BRASIL E LIVRARIA DA VILA CONVIDAM

para o lançamento do livro de crônicas
"O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR"
,

de FABRÍCIO CARPINEJAR

que será antecedido por debate com
IVANA ARRUDA LEITE E JOÃO CARRASCOZA
e leitura de textos por DENISE SILVEIRA E FERNANDO CHUÍ

na quinta (16/3), a partir das 19h30,
na LIVRARIA DA VILA
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena São Paulo

Estamos chegando?



Quando estamos viajando, meu filho desde a saída pergunta: estamos chegando? Afirmo que sim, apesar de faltar 300 Km. Cinco minutos depois, lá vem ele com a mesma questão: estamos chegando?
Por mais que ande rápido ou vença o trajeto, nada o demoverá da teimosia de querer descer logo ou de ser informado com detalhes de onde está. Estar chegando revela a ansiedade em definir os relacionamentos.
Fala-se da proximidade para afugentar a distância.
Não é uma mentira, é uma verdade afoita.
Apressamos em dizer que amamos para não conviver com as dúvidas e tampouco gerar suspeitas da legitimidade do sentimento.
Há uma pressa pelo final em todo o início e há uma pressa pelo início em todo o final. É obrigatório dizer "eu te amo" para continuar e formalizar o laço. Talvez seja paixão, mas "eu te amo" já pula da garganta. Talvez seja atração e "eu te amo" fica sentado na primeira fila. Talvez seja carência e "eu te amo" puxa a ponta da camisa e da língua para frente. Não que seja desonesta a declaração, pois não definiremos ao longo dos dias quando se ama verdadeiramente. A precipitação é um modo de garantir, de tomar conta. Não se vive de porta aberta, "eu te amo" é a chave. Ama-se com o quarto fechado.

É dito para fazer valer o esforço da conquista, coroar a sedução, assegurar que aquela pessoa é sua, e que não mais corre o risco de perdê-la. Caso nenhum dos dois fale, amarga-se uma sensação de inutilidade e de desprezo. Não existe como sair ileso da encruzilhada: se não apregoamos o "eu te amo" somos insensíveis, se declaramos toda hora pode se tornar um aceno, mero cumprimento. É preciso cuidar para que não seja usado sem vontade. Um selinho não é suficiente para mandar a carta. Sem desejo, o "eu te amo" é saudação de lápide, entra-se no território da proteção e da rotina, para se despedir de amar.
Servirá para afastar o beijo quando deveria prolongá-lo. E as atitudes, e as outras palavras não contam? Quantas vezes proclamamos o amor precocemente? Antecipamos para que de fato venha. Prometemos para depois ver se acontece. Ainda que incomparável, o amor se faz pela comparação com experiências anteriores. Define-se pela sua força em sobrepujar as lembranças e relações anteriores. É a superação do que foi vivido que valida ou não sua intensidade. Não representa o amor, e sim uma nova tentativa de amar.

Será que o amor não é tão-somente a vontade de amar?
Estou chegando. Nunca chegarei, amor é estar a caminho.